sexta-feira, 4 de maio de 2012

Felipe Nogueira encaminhou a seguinte postagem

O texto a seguir foi redigido após a apresentação do seminário sobre moradia, no qual a Profa. Fani  apresentou uma série de provocações, que entendemos enquanto questões necessárias para aprofundarmos nossas pesquisas sobre o tema, de modo a entendê-lo enquanto um momento da reprodução do espaço no contexto de crise do trabalho.



Desta forma redigi, antes de mais nada, uma problematização sobre o rap[1] e a linguagem, pois nossa primeira apresentação faltou em localizar o sentido da canção / vídeo, que acabamos usando (http://www.youtube.com/watch?v=SuKBHTBaioI) de forma meramente ilustrativa. Tentando localizar o sentido da canção / vídeo, busquei responder uma das provocações da Professora, que encontrou um ponto de vista reacionário na canção que faz trilha sonora ao vídeo apresentado, por essa canção samplear uma canção da Jovem Guarda, onde a rebeldia era mera questão estilística (talvez estética) e onde o amor e o valor são elementos de um estilo de vida em que as contradições de um regime ditatorial foram naturalizadas e embaladas no ritmo do iêiêiê...



A linguagem conceitual foi outra provocação apresentada pela Professora, o que me fez escolher o caminho da linguagem do rap (e do rapper) para tentar, através dela, encontrar um caminho outro para acessar conceitos que expressam uma forma de se colocar perante o real e perante as contradições da realidade.



As notas de rodapé foram incluídas após a releitura do texto considerando as colocações feitas pela Professora Fani e o meu próprio movimento de pensamento sobre o que eu havia escrito.

    

   

RAPlica[2]

 



            O rap acessa conteúdos e conceitos que evidenciam um certo pensamento-ação sobre o mundo a partir de uma experiência do vivido que se dá não através de uma linguagem própria[3] do discurso científico que muitas vezes é usado para acessar tais conteúdos e conceitos (mesmo quando se trata de um discurso de análise radical e/ou crítica, pois a crítica tem bases no rigor científico e muitas vezes disciplinar, assim como se pode justificar a cientificidade da geografia através do conceito da produção do espaço e de seu estatuto epistemológico[4]).



            A linguagem de rua usada no rap expressa não apenas uma forma estética de representação da experiência cotidiana nas ruas das periferias. Ela constitui uma alienação e, simultaneamente, desalienação[5] em relação àquela linguagem científica que por vezes positivamos pela sua importância na análise da realidade, por seu potencial de acessar conteúdos e conceitos abstratos e ao mesmo tempo reais, a partir dos quais formamos um ponto de vista sobre o mundo.



            Não se trata de defender aqui a espontaneidade da experiência contra a sistematização do pensamento e da análise, mas apontar que essa sistematização também encontra seus limites dentro de seu próprio potencial, já que ao realizarmos a linguagem enquanto forma abstrata de expressão e explicação do real, colocamo-nos a necessidade científica de separação entre forma e conteúdo, sujeito e objeto e todas as demais cisões do pensamento que preza pelo rigor científico moderno. Essa separação funda nosso pensamento e nosso limite em aceitar que outras formas de expressão e explicação da realidade existam, como a da espontaneidade estética do rapper, que constrói sua rima não a partir da ciência (de um método), mas da pura alienação-desalienação que sua prática cotidiana e sua experiência do mundo implicam[6].



            Assim, cabe-nos antes de sairmos pedindo a expressão linguística formal para acessar os conceitos, lembrarmos que eles são reais e que constituem uma realidade onde a linguagem formal não é a única forma de sua expressão e explicação, mas apenas uma das formas e que, muitas vezes, através de uma elaboração artística entre rítimo e poesia (e do elemento mais importante do rap, que é a conscientização) podemos superar formas de expressão que estão presas aos muros de universidades e que só podemos acessar através de uma cisão elementar para uma sociedade moderna, que é a da divisão intelectual do trabalho. Ora, parece que os escravos de Atenas, que não podiam participar da Ágora voltaram à tona! E eles não tem bons modos para falar sobre as coisas sérias do mundo do pensamento. Talvez eles sejam muito rebeldes, porque o mundo quis assim, porque nunca os trataram com amor[7]... 



            “Sou rebelde” é a música sampleada pelo GOG[8] em “Sonho Real”. Foi gravada por Lilian, uma cantora da Jovem Guarda, que fez muito sucesso no final dos 70 com essa gravação. A música trabalha a rebeldia sem conteúdo e fundamento social própria da Jovem Guarda no Brasil. Enquanto eclodia Maio de 68 na França, as classes médias no Brasil produziam uma juventude sem noção do seu papel no momento histórico do país. Por isso, a Fani disse que era uma citação reacionária. Mas, como o sampler é uma técnica que busca socializar a produção artística, apropriando-se e re-significando elementos formais (e seus conteúdos), buscando superar o autor e a propriedade intelectual, o rapper, em seu trabalho criativo, produz um novo sentido para a produção original, re-contextualizando os sentidos jovem guardistas do amor como valor e da rebeldia como falta de amor (de valor) para um contexto onde a rebeldia é produzida pela violência explícita contra quem é pobre.



            É claro o contraste entre a base musical da canção de GOG e a narração dos fatos pelo rapper[9], explicitando-o pela agressividade com que narra. Daí o papel criativo e artístico de realizar um contraste entre a narração dos fatos (o massacre, a expulsão violenta, o sentimento de revolta que isso gera no ouvinte consciente - o narrador tem aqui papel primordial para estabelecer esse sentido para a canção) e a trilha sonora sampleada de uma música em que a rebeldia simples falta de amor e não produzida pela realidade contraditório que constitui relações contraditórias, através das quais os homens se realizam enquanto produtores e consumidores de uma racionalidade irracional[10]...



            Qualquer um que conhece um pouco de rap sabe que o amor é carta fora do baralho... pra quem vive na guerra a paz nunca existiu[11] . As canções retratam um cotidiano quase suicida. Mas várias músicas sampleadas atraem o ouvinte exatamente pelo contraste com a violências dos fatos organizados na narração do autor. A produção de um sentido novo se dá por esse contraste, de trazer elementos formais da canção da juventude da jovem guarda iêiêiê, romântica e rebelde, que emergia em pleno surgimento de um ambiente urbano (onde se podia sair mostrando o seu belo carro para as garotas – vide as tantas músicas da J.G que falam de carros) que se desenvolvia do Brasil e no qual a classe média conformava-se em um estilo de vida[12].



            Nos dias atuais o rap é a expressão da experiência trágica desse ambiente urbano, que mostrou suas contradições e gerou um certo estilo de vida da juventude da periferia... completamente outro em relação aos jovens guardistas[13], mas, ao mesmo tempo, os pais desses jovens de periferia ouviram muito mais a Jovem Guarda do que os Tropicalistas ou os representantes da ala crítica da MPB da época (Chico Buarque principalmente). Além disso, os próprios rappers ouviram, na infância, a J.V mais que o Chico Buarque, porque embora a J.V fosse música acrítica e reacionária era, por isso mesmo, ela muito mais difundida pelos meios de comunicação de massa da época, enquanto a MPB, crítica e progressista, sempre foi uma música consumida pelas classes médias brasileiras. Tanto é que Jorge Bem e Tim Maia, que faziam MPB misturada com Funk e Soul, que são música dos negros norte-americanos dos guetos, não foram bem recebidos pelo mercado da MPB, mas sim pelo da Jovem Guarda, e esses artistas (que trouxeram influências da black music para a MPB) foram as principais influências dos rappers brasileiros.



            Enfim, contradições abertas para serem melhor analisadas e aprofundadas.



[1]Abreviação de Rhythm and Poetry (Ritmo e Poesia).
[2]Trocadilho com a palavra réplica, já que se trata de uma resposta às provocações feitas pela Professora Fani.
[3]Antes o texto apresentava “linguagem enviesada”. A Fani não concorda que haja uma linguagem enviesada pelo discurso científico e, refletindo a colocação feita por ela, cheguei a conclusão que o melhor sentido para o objetivo que eu queria dar ao texto era o de “linguagem própria” da ciência e da maneira como a ciência opera.
[4]O que - em considerando as próprias elaborações de Lefebvre sobre o conceito de produção do espaço, proposto em sua obra – nos faz acreditar que não se trata de dar ao conceito uma imobilidade rigorosa e institucional, mas, pelo contrário, considerar sua plasticidade e seu conteúdo histórico social, ou seja, sua prática e suas implicações na prática. 
[5]O termo foi lembrado pela própria Fani ao nos provocar sobre uma leitura (a qual estávamos reproduzindo sim em certo sentido) de que não há outro caminho senão o da alienação do trabalhador pelo trabalho social. A Fani lembrou que a alienação em Marx é posta em relação dialética com a desalienação, constituindo um processo de formação da consciência do proletariado, classe que guarda em si o polo que determina a contradição da relação capital-trabalho, a saber, o trabalho, que é custo de produção ao capital e, por isso, implica em um entrave à realização do capital e, simultaneamente, é um momento necessário para a realização do mesmo enquanto capital, já que ele detém o conteúdo da forma valor, essência do capital. 
[6]A experiência da prática social é a matéria elementar de todo rap que se preze. O rapper que narra fatos e histórias não vivenciadas por ele acaba sendo caracterizado por ser um vacilão, ou outra gíria que expresse que é um rapper sem experiência de vida, mas que fala da quebrada sem nunca ter vivido nela.
[7]Trata-se da citação da parte em que a Fani encontrou o sample da música da “Sou Rebelde”, da Jovem Guarda: “eu sou rebelde porque o mundo quis assim, porque nunca me trataram com amor e as pessoas se fecharam para mim”.
[8]Iniciais de Genival Oliveira Gonçalves, rapper do Distrito Federal.
[9]O rapper, embora seja dele solicitado uma experiência de uma prática cotidiana localizada nas periferias das grandes cidades, não é sempre o próprio intérprete. O papel da figura do narrador tem importância ímpar na produção artística-social do rap. Assim, o narrador é confundido na experiência social que é conteúdo de sua narração, podendo assumir diversas formas, inclusive a da experiência individual e pessoal do interpréte (no caso o GOG), mas não apenas. Assim, de forma preconceituosa e mesquinha, a grande mídia marginaliza e criminaliza o rap, argumentando que os rapper´s fazem apologia ao crime e à violência urbana. Ora, considerando que realmente exista uma vertente mais própria de um rap menos consciente, mas não menos expressivo e denunciativo (o gangsta rap), não se pode valer de todo rap como a narração estrita de uma experiência pessoal, mas sim a narração de uma prática social e histórica, às vezes mais e as vezes menos alienada.  
[10]Foi mais ou menos esse o sentido da crítica que a Fani fez ao refrão do rap. Concordo plenamente com essa crítica, mas acho que faltou um olhar mais pormenorizado para à forma de expressão com que o rapper elabora sua produção.
[11]Citação de trecho da canção Nego Drama, dos Racionais MC´s (2002).
[12]Não se fez necessário explicar melhor o que seria esse estilo de vida urbano, mas apenas apontar seu surgimento e a relação com estilos musicais próprios de uma reprodutibilidade técnica avançada das forças produtivas no âmbito da indústria fonográfica, possíbilitando o surgimento de meios de difusão mais rápidos e abrangentes e, ao mesmo tempo, de uma produção artística musical mais efêmera e instantânea: os chamados sucessos instantâneos, que explodem com rapidez e desaparecem ainda mais rápido no universo paralelo forjado pela indústria cultural. Isso tudo implica novas tendências para o consumo e para as grandes cidades, em um sentido que não pode ser explorado pormenorizadamente neste texto.
[13]Mas também influenciados por um processo que contém a urbanização e sua implosão-explosão.

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