sexta-feira, 18 de maio de 2012

por Ricardo Hankon

1. A cidade das empregadas domésticas

Ao extremo, além do norte, sul, leste e oeste. Alhures. Há a cidade das empregadas domésticas. Uma população predominantemente feminina; ou não sendo, se fazia, pois o número de mulheres que se podia encontrar pelas ruas, nos transportes públicos, filas de supermercados e lojas era muito superior ao dos homens. Mas o que realmente atraia a atenção para essas mulheres era a capacidade de reunião. Muitas nem se conheciam, porém ao se encontrarem travavam as mais diversas conversas, é como se houvesse entre elas um elo que outras profissões, pessoas, e classes não pudessem perceber, ou conceber.

A tênue união entre elas ao que parece se dava nos traços. Se elas estivessem enfileiradas num banco de trem com as mãos sobre os joelhos diríamos que as diversas mãos pertenciam a uma mesma pessoa. Os olhares também seguiam a mesma afinidade, enquanto o corpo sacolejava de transporte em transporte os olhos vislumbravam outra coisa, no reflexo da janela do ônibus podíamos ver uma casa; um filho; um jardim; um marido; além de preocupações cristalizadas nas paisagens da cidade.
A viagem destas mulheres (Sim, apenas mulheres, não há necessidade de particularizá-las, recorrer a outros substantivos, adjetivos ou pronomes. A repetição aqui ganha vida, visto que reflete a vida destas mulheres. A estória de uma é a história de todas, d iferenças há, mas há, e ainda mais forte, um ciclo que se repete; uma geração de donas de casas para casas que não fazem parte) geralmente são extensas. Da cidade das empregadas domésticas a cidade do poder há um distância considerável: em segurança e trajeto. As mulheres da cidade das empregadas domésticas apenas transitam pela cidade do poder, a vida que gastam entre pratos e copos é semelhante a uma estrada, há somente dois pontos: Casa (delas). Casa (deles). Não há caminhos para elas, já que caminhar é destrinchar o espaço com possibilidades, tomá-lo para si, adentrar pontos desconhecidos. Mas, as mulheres da cidade das empregadas domésticas não se incomodam com isto, a estrada pode ser seu destino, contudo, para seus filhos lutam pelo caminho.

São 8 horas de trabalho mais 4 ou 5 horas de viagem: 13 horas por dia. Considerando o tempo para se arrumarem (e isto inclui maquiagem, roupas , mais acessórios, pois por mais humilde que seja a cidade das empregadas domésticas a Vaidade continua a visitá-la), somam-se, também, os afazeres domésticos, temos então: 5 horas de sono. Os cálculos não seguem um padrão exato, visto que temos de adaptá-los a vida destas mulheres, mas o resultado final é basicamente este. Isto quando um filho não fica doente, de caráter ou fisicamente. Qualquer coisa que os afaste do caminho, torna-se motivo para noites mal dormidas, pratos quebrados e roupas queimadas.

Apesar do pesares seguem sua saga individual; sua odisseia coletiva. Ainda riem de suas histórias, mas muito mais da história de seus patrões. A vida das pessoas da cidade do poder é um filme para elas, estão sempre como espectadores, embora, ao contrário dos tickets de cinema, as entradas aqui são compradas com vidas, e o troco vem como salário.

Por Ricardo Hankon

Nenhum comentário:

Postar um comentário