quarta-feira, 27 de junho de 2012


Felipe de M. Nogueira / Noturno

           

Reflexão para o curso de Geografia da Metrópole

           

            O desenvolvimento e a produção da vida passam pelo desenvolvimento e pela produção das condições materiais de produção de uma determinada sociedade em um determinado período histórico. Se estamos todos sob o moderno e a modernização enquanto processo, há que ater a análise da vida e do humano enquanto momento da produção abstrata de um mundo real[1], entendendo tal produção como que provinda das atuais condições materiais do mundo moderno. Talvez possa ser o espaço a condição material, abstrato-concreta, da nossa época, mas esse entendimento não pode ser referencial para a análise antes de adentrarmos aos interstícios da produção do espaço como produção da alienação espacial.



             Da segunda metade do século XX para os dias atuais temos a maior presença do capital fictício, que estende-se para a vida privada, definindo relações de produção onde o dinheiro coloca-se enquanto virtualidade, crédito, prestação, dominação e consciência, não cabendo lugar para o sujeito emancipado, produtor de relações sociais humanas e portador de uma prática emancipadora em relação aos objetos que regem sua existência. O desenvolvimento do capital fictício não é apenas o de uma economia financeira, mas o do mundo do consumo e da reprodução das relações sociais de produção, tendo na urbanização a base para novas produções econômicas. A metrópole é a grande produção econômica-política do capitalismo moderno, pois é a partir dela que as contradições no espaço (contradições sociais acumuladas no espaço através do tempo) tornam-se contradições do espaço, provindas de uma lógica espacial, que retém os conteúdos da urbanização.



            O espaço urbano da metrópole é aquele em que se produz alienação consumindo-se espaço enquanto uma mercadoria. A moradia é o primeiro lugar em que a consciência do indivíduo livre para o mercado do espaço irá se formar e começar sua maturação. No entanto, a moradia tem um sentido para quem experimenta  o o seu consumo efetivo e outro para quem vive a experiência trágica de consumi-la mais enquanto imagem do que enquanto realidade. Nos dois casos há a presença de uma alienação espacial, porém, uma se dá pelo consumo direto do espaço – mercadoria e o outro se realiza através da imagem, do vislumbramento, da ilusão real e necessária de que o Estado nos assiste a todos com moradia digna.



            A circulação das mercadorias impõem um movimento de centralidades e de deslocamento a partir dessas centralidades. Tal deslocamento está envolto à produção da alienação espacial. Da maquinaria da indústria para a metrópole enquanto máquina social há um movimento a ser melhor desvendado, que é aquele da crise da cidade. Mas não há como deixar de notar que o plano da circulação é aquele da informação e do conhecimento também, através do qual um amontoado de imagens circulam nos lugares da vida cotidiana, aqueles que a metrópole configura como espaços de passagem e nunca de apropriação. A paisagem tornada imagem? O que seria então da Geografia?



            Há, nas imagens da metrópole[2], a ilusão necessária de uma sociedade civilizada e desenvolvida humanamente, pois deve-se usar das imagens para dar sentido àquilo que perdeu seu sentido no mundo moderno. Após duas grandes guerras devastarem a experiência humana e a derrocada do socialismo representar a devastação de uma outra experiência social possível, a metrópole torna-se a forma predominante de um ideal democrático e liberal que, para nós, sustenta aquilo que se chama hoje de humano. As metrópoles, no entanto, são a imagem e a realidade de um mundo onde as relações sociais de produção sob a forma da mercadoria esgarçaram-se, separando ainda mais o trabalhador de seus meios de produção e de reprodução, mediatizando a vida privada e tornando-a cada vez mais subsumida ao setor de serviços[3], próprio de uma economia financeirizada, pós Grande Indústria, onde novas atividades econômicas, como o turismo e o lazer, irão despontar a partir das portas que a reprodução do espaço urbano irão abrir como novas possibilidades de acumulação.



            De fato, estamos sob a contradição da produção social do espaço e de sua apropriação privada (CARLOS, 1999), ao nível da vida privada e ao nível do global. Essa produção, embora vise a homogeneização e a padronização dos usos dos espaços urbanos enquanto apropriação privada, através de uma série de instrumentos para esse fim – operações urbanas; circulação de objetos, pensamentos e pessoas restritos à lógica da acumulação e da alienação espacial; moradia social atrelada à indústria da construção civil; planejamento estatal e político estratégico para refuncionalização de espaços da metrópole – não o faz sem deixar resíduos e provocar conflitos com o modo como as pessoas produzem suas próprias vidas. Mesmo assim,  tudo isso deve atender a um movimento objetivo que é o da acumulação de capital.



            A reprodução do espaço coloca novas possibilidades de acumulação em uma sociedade que parecia encontrar o seu fim após o trágico século XX. As metrópoles são a esperança democrática[4] de um mundo mais igualitário onde a igualdade é a base de uma forma moderna de dominação social que é a da troca. Assim, a metrópole é a generalização do valor de troca (SEABRA, 1996) como momento necessário para um capitalismo que se reproduz não apenas pelo trabalho produtivo, mas também pelo consumo e pela possibilidade de consumo. Não foi à toa que começamos nossa investigação acerca da metrópole com a preocupação de como ela nos é apresentada pela mídia, para depois desvendar seus conteúdos.



            A metrópole é, atualmente, uma imagem que se apresenta e se vende por diversos meios[5]. Sua produção enquanto imagem se dá como justificativa para grandes empreendimentos e megaprojetos que envolvem a remoção e a revitalização de áreas centrais e periféricas. Mas também é essa produção que confere aos lugares um maior nível de trocabilidade (CARLOS, 1999). O turismo, por exemplo, produz antes imagens que espaços concretos[6], dando sentido aos espaços a partir de sua potência para a troca, de sua rentabilidade, que dependerá, em muitos casos, da forma como esses espaços são difundidos pelos meios de comunicação.



            A Geografia tem que lidar com o espaço enquanto uma relação social mediada por imagens[7] e não mais apenas enquanto relação do homem com a natureza. A forma como os homens se relacionam está cada vez mais distante do conceito de natureza. Seus modos de vida foram invadidos por uma sociabilidade monetarizada, que impõem a forma lógica espacial, aquela das estratégias, vazia de conteúdos. Enquanto possibilidade para o desvendamento desse processo de alienação espacial cabe a Geografia a busca por uma dialética do espaço, que supere a lógica espacial, formatadora e reguladora da vida cotidiana. Antes de se pensar uma Geografia que dê conta de reafirmar o espaço como seu objeto devemos ir ao encontro de uma Geografia que busque o desvendamento dos conteúdos do processo de produção – reprodução do espaço enquanto conteúdos que abrem um caminho para partirmos e não enquanto um ponto de chegada para a justificativa da ciência geográfica.



            Portanto, não será pela planificação, organização e ordenamento do território ou do espaço que a Geografia possibilitará algum enfrentamento frente à complexidade da metrópole e de sua lógica reprodutora. Esse caminho apenas repõe a fragmentação abstrata e real dos conteúdos da urbanização. Uma Geografia que busque resolver os problemas provindos dessa fragmentação não irá alcançar um resultado maior que a própria reafirmação da lógica espacial e da produção da alienação espacial. Faz-se necessário costurar os conteúdos através de seus pontos de ruptura com o esvaziamento e a perda de sentido, promovidos pela alienação espacial. É um desafio para a reflexão disciplinar e talvez um limite para a mesma. Contudo, uma Geografia comprometida antes com o “desvendamento” do movimento da prática social do que com a formulação de leis gerais de um sistema fechado e imóvel, estruturado em si mesmo, pode abrir novas fissuras na rigidez programada da realidade.





BIBLIOGRAFIA





CARLOS, Ana Fani Alessandri. “Novas” contradições do espaço. In: O espaço no fim do século: a nova raridade. ORG´s: CARLOS, Ana Fani Alessandri. / DAMIANI, Amélia Luisa. / SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Geousp Novas Abordagens n° 1. Editora Contexto. São Paulo, 1999.



DAMIANI, Amélia Luisa. A crise da cidade: os termos da urbanização. In: O espaço no fim do século: a nova raridade. ORG´s: CARLOS, Ana Fani Alessandri. / DAMIANI, Amélia Luisa. / SEABRA, Odette Carvalho de Lima. Geousp Novas Abordagens n° 1. Editora Contexto. São Paulo, 1999.






ENGELS, F. & MARX, K. (1977). A Ideologia Alemã. Editorial Grijalbo.



GONÇALVES, Glauco Roberto. (2011). Projeto de Doutorado.



SEABRA, Odette Carvalho de Lima. O pensamento de Henry Lefebvre e a Geografia. Boletim Paulista de Geografia – Nº74 – AGB – São Paulo. São Paulo, 1996.



[1]    Para o materialismo histórico dialético o real é momento de uma abstração que se torna concreta, colocando a realidade como abstração e a abstração como a realidade. Pensemos a partir desse pressuposto marxista lógico-histórico a metrópole enquanto forma abstrata que nos deixa escapar os conteúdos, mas os quais buscaremos aqui explorar a partir dos seminários do curso de Geografia da Metrópole. Assim, buscaremos analisar a forma lógica enquanto realidade concreta e prática.
[2]     Aqui me refiro às imagens que as instituições internacionais como ONU, Banco Mundial, FIFA etc... criam no imaginário global. Das metrópoles como berço civilizatório e democrático, onde as ditaduras e opressões foram superadas pelo ecumenismo social, político e econômico. A consciência ambientalista contribui em muito para essa forma de consciência totalitária revestida de consciência e responsabilidade social. Trata-se, no limite, do grau de interiorização da forma estatal e jurídica em cada pessoa, de forma que nos representemos enquanto Estado.
[3]     Seria mais propriamente ao dinheiro. A referência é ao mundo do consumo mediado pelos serviços e pela financeirização dos mesmos, a ponto da vida privada se ver tomada pela esfera econômica a tal ponto de se confundir, por vezes, com ela.
[4]     Para todos nós, mas principalmente para as classes médias, que vêm nas metrópoles o espaço pleno para sua reprodução, mas que esperam dela a eliminação da pobreza (causadora da violência urbana) pela distribuição mais igualitária da riqueza, sem que ela perda sua posição social de consumo.
[5]     Uma imagem, um cenário, uma realidade abstrato-concreta que se realiza enquanto uma determinada prática social e espacial. A realização enquanto imagem define e revela uma alienação contida nesta prática social e espacial da metrópole.
[6]     Não que ele não produza espaços concretos e até mesmo não-lugares  como os shopping´s centers e os ressort´s, mas a imagem da vida nesses lugares é sempre uma mercadoria tão ou mais importante que eles próprios.
[7]     Momento da alienação enquanto espetáculo. Essa interpretação pode ser redutora de fato, mas carece de um maior desenvolvimento que, talvez, estaria ao nível da constituição do espaço abstrato, de um momento histórico em que o movimento da produção do espaço torna-se o de uma abstração lógica e por isso mesmo real e prática, que aponta para uma alienação espacial e em que na relação homem-natureza não é mais possibilitado a constituição de um “modo de vida”, já que o cotidiano instaurado irá homogeneizar e institucionalizar a vida humana.  

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