terça-feira, 26 de junho de 2012


Vertigem à la paulista

Alessandra Alves

Desço do ônibus, para mais uma entrevista. Pego a direção contrária e me deparo com outras faces da Avenida Faria Lima. Um leve caminhar de 5 minutos, e, em 350 metros, contabilizado o número (bizarro) de cinco estacionamentos. Três arranha-céus começam a tomar corpo e anunciam sua chegada pelo canto das britadeiras.

Restaurantes se alternam com os muros de condomínios encastelados. A sacada cerceada por vidros isola os moradores e os impedem (ou lhes privilegiam?) de sequer respirar sequer o ar que o resto da cidade. De repente, me deparo com a primeira pessoa negra: uma mulher uniformizada que me lembra os terceirizados presentes (ou escondidos?) em corredores e portarias da minha faculdade.

Chego ao edifício (enorme) onde meu entrevistado me aguarda. Para entrar, apresento o RG - sorrio, na tentativa de, desconhecida, passar a cadastrada. Direciono-me ao elevador e constato que o prédio possui nada menos do que 18 andares. Enquanto aguardo ser chamada para iniciar a entrevista, passo no banheiro. Recebo as boas-vindas da lixeira eletrônica, que abre-e-fecha constantemente ao captar qualquer movimento meu: parece balbuciar "Seja bem vinda" na entrada e "Volte sempre" na saída.

Realizo a entrevista e decido ir a pé até o trabalho. À minha frente, um corredor de concreto, com paredes coloridas por logos: HSBC, Safra, Burger King, Bradesco, Itaú, MC Donalds, CVC, Santander, Banco do Brasil, Unilever. Os grafites emergem dos tapumes; parecem berrar gritos mudos na tentativa de romper o concreto. "Já abraçou hoje?", me pergunta um deles.

Passo por prédios e fachadas. Sinto-me estrangeira em terra tupiniquim e procuro uma tecla SAP mental: Palace, Financial Center e Faria Lima Classic. Os edifícios me saudam; suas portarias possuem fontes de água exuberantes que dançam no ar. Distraída (ou impressionada?) com a paisagem, torço o pé duas vezes nos buracos em que se transformaram as calçadas. Perco as contas das fitas e tapumes que isolam áreas que deveriam servir à circulação de pessoas. Procuro homens negros de terno: só os encontro nas portarias dos edifícios. Gasto alguns segundos em frente ao Iguatemi, feudo encastelados da galera diferenciada, e vejo uma babá sair de lá com um carrinho de bebê.

Olho para os lados, sufocada, e percebo que não consigo ver o céu. Não importa para que lado olhe, o perfil de prédios recorta uma linha do horizonte e retalham o céu. Nuvens (metalizadas)são vistas somente nas fachadas espelhadas de edifícios. Olho para cima na tentativa de encontrar uma nuvem, inteira, disponível para observação. Nesse momento, um pássaro motorizado, movido a gasolina, rasga o branco das nuvens. Os prédios se refletem e exibem, orgulhosos, as fachadas de seus vizinhos, numa metalinguagem que se (re) produz a cada quarteirão.

O ar é pesado para respirar. Carros? Antes deles, o oxigênio me transmite a neurose dos cigarros, tragados por faces angustiadas que correm no intervalo entre a mordida de um hambúrguer e o enrubrescer do semáforo. O homem vence o relógio e, antes de entrar no prédio, dá a última mordida no seu almoço.

Passo pela calçada: lado a lado, tabacaria, loja de roupas e farmácia. Está estressado? Dá um trago. Não foi suficiente? Dê uma relaxada e una "promoção imperdível" a "renovação do armário". Ainda não está feliz? Toma um analgésico, antes de tentar agendar uma ida à terapia.

Esmagadas no meio fio, entre esquinas e automóveis, as pessoas esperam, apreensivas e apressadas, uma brecha mínima para atravessar a faixa de pedestres. Pajeros e Terminais (Penha, Capelinha, Bandeira, Santo Amaro) dividem a pista. Paraisópolis, Jardim Palmas e Estrada M'Boi Mirim também dão o ar da graça. Aqui tem espaço para todo mundo - cada um no seu respectivo lugar: do Toyota pro escritório, do Embu das Artes para copas e almoxarifados.

Multifacetado como o cartão de crédito, pequeno como um iPad, ele surge artificial e emoldurado nas capas de

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