segunda-feira, 23 de julho de 2012


" O giro cultural e os estudos urbanos"

A sessão realizada dentro  do 54 Congresso da ICA, que teve como sede a cidade de  Viena em julho de 2012,  segundo minha análise, traz algumas questões para reflexão.

Partindo do pressuposto de que a cidade não é um objeto de estudo de uma única disciplina, mas um tema  interdisciplinar por excelência, a sessão reuniu pesquisadores de vários campos das ciências humanas num debate em que várias vertentes analíticas se compuseram em torno do desafio de pensar a cidade contemporânea enfocando o espaço e a cultura como categorias centrais de análise. Neste sentido a sessão trouxe elementos para   pensar a cultura como momento da compreensão dos processos de produção e reprodução da cidade e do urbano bem como da vida no contexto de uma sociedade, tendencialmente, urbana.

Em primeiro lugar e o mais importante foi que os trabalhos apresentados fugiram da  tendência  da autonomização da cultura dos outros níveis da realidade social, permitindo uma melhor compreensão da potência do nível cultural na explicação do mundo. Dado importante para nós geógrafos,  na medida em que, refundada pela Geografia,  como uma crítica ao economicismo, a chamada "geografia cultural",  vem realizando exatamente a mesma coisa : reduzindo a realidade a uma só dimensão  - agora pelo lado da cultural. Deste modo a Geografia,  na medida em que se recusou a entender a cultura como elemento do mundo da pratica social , permitiu que, empobrecida, a dimensão cultural se refugia-se na esfera do individuo isolado da sociedade e do mundo.

Localizada na totalidade social, o enfoque cultural permite pensar nos conteúdos da relação entre o habitante com o outro e, destes  com a cidade - bem como as representações construídas entorno da cultura e da cidade. Neste movimento o habitante se constitui em sujeito social.

Em segundo lugar convém apontar a ideia de que a complexidade da realidade contemporânea coloca-nos novas categorias de análise, bem como a redefinição de antigas. Deste modo pode-se pensar que uma " virada cultural" pode revelar  "uma virada espacial", estabelecendo  a potência e o lugar de cada uma delas no contexto da totalidade social.

Um terceiro aspecto do debate apontou para o fato de que o enfoque através da cultura, não encobre o movimento contraditório do mundo, iluminando aquilo que o define: a profunda desigualdade que na cidade e no espaço urbano redunda no processo  de  segregação. Tal fato aponta mudanças significativas na vida cotidiana e nos modos de habitar a cidade. Transformando as relações sociais  - no contexto de mudanças profundas no espaço urbano -  encontramo-nos diante da constituição de uma nova urbanidade.

Finalmente é possível concluir sobre o importante  papel que a cultura - tornada ideologia - desempenha no mundo moderno contribuindo de modo significativo no processo de acumulação do capital uma vez que referencia projetos de transformação urbana no contexto da constituição da "cidade como negócio".



                                                           Ana Fani Alessandri Carlos

                                                           coordenadora da sessão




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