quinta-feira, 17 de outubro de 2013


ENANPEGE - Uma semana de desafios ?

"Já estamos em pleno século XXI. Se não reconhecermos a nossa identidade e o nosso papel no Brasil do presente perderemos uma oportunidade histórica de atuação."[1] Esse é um dos desafios propostos na apresentação do X ENANPEGE. Anuncia a ANPEGE como lugar precípuo para pensarmos nossas atividades aonde se reúne- por definição - um conjunto significativo da pesquisa que se realiza no âmbito da Geografia. Um lugar constituído por uma identidade.

Há sempre um espaço profícuo para o debate e a troca de ideias. Há sempre há algo que se constrói coletivamente e que permite a Geografia avançar. A ementa de apresentação do X ENANPEGE aponta um debate que não pode ser esquecido. Este é o forum que associa pesquisadores de GF e GH separados, na prática, por pesquisas fragmentadas. Único lugar onde a convergência destes "campos de pesquisa", esta posta como princípio. Momento em que o livre curso de pesquisadores pode gerar aproximações questionadoras de subdivisões, superando workshop de experts. Portanto, o lugar aonde se abriria a possibilidade do novo que é sempre uma aposta que deve conter, em si, a critica ao que existe. É assim que o conhecimento caminha.

Mas pensar a Geografia num mundo em transformação, num pais aonde as pessoas resolveram em massa se manifestarem contra o status quo, é um desafio ao qual não podemos nos furtar. Requer o debate sobre os impasses da pesquisa e suas dificuldades criando o ambiente necessário à construção de um projeto coletivo. "É um bom momento para sairmos mais dos intramuros das universidades e das instituições de pesquisa no sentido de contribuir com as grandes questões nacionais."[2] Requer que  cada um de nos, reconheça os desafios e situações de crise, significa estar aberto ao diálogo, reconhecer o fato de que o processo de conhecimento é coletivo. Que a critica é o comportamento precípuo a partir do qual o conhecimento se gesta e o debate pode iluminar caminhos de pesquisa.

O espaço da ANPEGE, numa universidade fragmentada deveria ser um ambiente de tolerância necessário à construção de um diálogo diante de um  mundo em transformação muito rápida. Um mergulho no desafio de (re)- encontrar o que une a Geografia e os geógrafos - e sua responsabilidade social.

Das dificuldades: pelo direto de discordar?

Entre tanto diretos conquistados um tabu parece estar longe de ser derrubado: o exercício da critica e a  "criminalização" da divergência de opiniões que impede que o diferente aflore e seja respeitado em sua situação de divergência. Porque temos que pensar todos da mesma forma, num único caminho para a pesquisa e para a universidade? Porque temos que desqualificar a divergência? O homogêneo só se conquista pela força, a meu ver, incompatível com o sentido da universidade. Se no  mundo acadêmico, numa reunião de pesquisadores, não se pode manifestar  divergências de pensamento e colocar ideias para o debate aonde vamos fazê-lo? Aonde e como vamos superar os cenários de crise teórico e prática? Porque a critica de ideias tem que se reduzir e ser confundida a uma  critica  pessoal. Quando atingiremos o amadurecimento necessário para que o debate acadêmico possa se realizar plenamente, sem a desqualificação do outro?

Mas o que me parece mais grave: como superar o modelo competitivo que se instaura entre nós e que  compromete o debate e desqualifica o papel que a Geografia poderia assumir no mundo moderno? Porque temos que submeter a autonomia universitária á lógica da política das instituições de fomento? Porque nos submetermos, como cordeiros, exigência do ranqueamento imposto pela CAPES que nos leva perigosamente á construção de um "mercado acadêmico"? Como superar o deslocamento de nossas preocupações do currículo lattes e, da nota da CAPES, para uma preocupação em compreender a realidade brasileira em suas contradições e conflitos? Como superar a avassaladora voracidade daqueles que acreditam que os foros de debate de pesquisa devam ser usados para aumentar superficialmente o lattes - como se o reconhecimento acadêmico viesse do tamanho do currículo e não da qualidade da pesquisa? Mas sobretudo, como a comunidade geográfica avalia que 70% dos Grupos de trabalho, nesta edição do ENANPEGE, traz coordenadores ( cuja função é aquela de analisar/ escolher, portanto avaliar os trabalhos a serem apresentados) em situação de apresentadores de trabalho? Pior ainda, como compreender e justificar que em dois casos, coordenadores de GT aparecem com 7 trabalhos de sua autoria/coautoria no mesmo GT ( sem esquecer que em outros casos temos com 5, outro, ainda com 4, alguns com dois, etc.) ?

Como urgência coloca-se para a reflexão. O fim do preconceito inaugurando o direito de divergir e o exercício da crítica como condições  necessárias e indispensáveis à criação do ambiente da pesquisa e do trabalho acadêmico. Uma ética que mova nossas relações sustentada pela transparência nas avaliações dos trabalhos realizados em todos os níveis. O compromisso da Geografia como possibilidade de compreensão do mundo em que vivemos. Afinal, "o papel da Geografia sempre foi o de interpretar a rede complexa que envolve a produção social do espaço, em suas várias dimensões e escalas, funcionando nesta engrenagem como uma ferramenta capaz de compreender a imbricada trama das lógicas socioespaciais e, por isso mesmo, de orientar  as ações sobre as dinâmicas territoriais"[3] ?

 



[1] Ementa de apresentação do X ENANPEGE, 2013
[2] X ENANPEGE op cit
[3] Apresentação X ENANPEGE

Um comentário:

  1. Boa tarde, Profª Ana Fani. Sou mestrando do Instituto de Geografia da Unicamp, já em fase de defesa da tese. Sou admirador de seu trabalho: seus textos, análises e categorias fazem parte do arcabouço teórico-metodológico que utilizo em minha pesquisa. Gostaria de tecer algumas considerações sobre o seu texto: a) A Geografia é uma ciência que tem como objeto o espaço geográfico, porém num país de tantas desigualdades a Geografia tem ainda um papel fundamental na formação de uma sociedade mais justa e cidadã, ou seja, a Geografia ainda serve à formação de educadores para a educação básica, fundamental e média. Historicamente é uma ciência (como as demais), que esteve até à final da década de 1970 a serviço do Estado, do planejamento e do status quo (você sabe melhor que nós disso); b) A expansão das vagas no ensino universitário no país, nos níveis de graduação e pó-graduação no país, teve como consequência um aumento de concorrência pelos parcos recursos disponíveis, o que reforça esse quadro produtivista da academia; c) o currículo é ainda o principal critério para concessão das bolsas e da maior parte dos processos de seleção de alunos para os programas de mestrado/doutorado, bem como da seleção de docentes para as universidades. d) os próprios docentes das universidades estaduais e federais reforçam o modelo produtivista que é reproduzido pelo alunos: pouco dão importância às questões políticas universitárias (por excesso de trabalho: aulas, pesquisa, bancas, pareces para Capes e Fapesp?) e ainda; d) nos fóruns, e isso foi visível no Enanpege e ENG deste ano, os expositores deixam pouco espaço para o debate, visto a extensão das apresentações e pouco tempo destinado ao diálogo; e) Se os cursos de mestrado-doutorado são para professores (só de nível superior?), porque ainda os profissionais da áreas da educação básica são tão desvalorizados (a exemplo do processo de concessão de bolsas da Unicamp, que exclui do processo seletivo os professores com cargos na rede pública e privada de ensino - estou falando de uma pessoa que trocaria temporariamente o ensino pela pesquisa)? Atenciosamente, Rafael Roxo.

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