sexta-feira, 9 de maio de 2014

Mais uma reflexão de Fábio Sousa para dialogarmos - O oculto na paisagem: a cidade de São Paulo

A cidade de São Paulo é dotada de muitas e distintas paisagens. Se fizermos o exercício de sairmos de um extremo ao outro da cidade, poderemos constatar como a cidade é apropriada e (re)produzida de diferentes formas, e como o seu espaço é  transformado através das relações econômicas, do trabalho social e dos diferentes interesses entre ricos e pobres, burguesia e proletariado.
São muitas as formas de morar, de viver, de trabalhar nessa cidade. Contudo, a pluralidade, na forma de apresentação das paisagens urbanas, traz implícitas relações sociais que não podem ser apreendidas facilmente por um observador qualquer.  Porém, há outras relações que são de fácil percepção, como verificar que há locais mais planejados, mais bonitos, mais limpos, mais arborizados e com mais serviços sendo oferecidos do que outros. Um observador qualquer também é capaz de perceber que nas periferias, carentes de serviços de infraestrutura urbana, é onde residem os mais pobres, os trabalhadores, enquanto nos bairros mais ricos e mais bem servidos por esses serviços públicos, residem os mais ricos. Mas para um sujeito desavisado, que não tenha tido algum contato com estudos sobre a dinâmica das classes, a (re)produção do espaço urbano ou a modificação nas formas de uso do solo urbano, fica muito difícil enxergar alguns fatores que se ocultam nas diferentes paisagens e nas relações do cotidiano, como a mais valia, a segregação socioespacial, a especulação imobiliária, a acumulação flexível e o neoliberalismo.
A exploração, naturalizada, de uma classe por outra, pode não permear a mente do explorado, e se a permeia, muitas vezes não é suficiente para que este rompa com o ciclo de exploração, mesmo por que, a sociedade é feita por indivíduos e exige, como fator de transformação, que a individualidade seja extrapolada para a coletividade, na defesa dos interesses de classe. A cidade de São Paulo, como cidade capitalista global, é constrangedoramente construída e transformada tendo como pilares de sustentação o sacrifício dos mais pobres em benefício dos mais ricos.
Enquanto observamos prédios luxuosos, de arquitetura futurista pós-moderna na região da Faria Lima, Brooklin, Berrini, que localizam escritórios de grandes corporações comerciais ou grupos financeiros, centros de compra voltados às necessidades de consumo de uma elite pouco numerosa e condomínios residenciais fortemente monitorados e cercados por altos muros, encontramos na periferia da cidade, ou mesmo no Centro Antigo, formas de viver e de habitar na precariedade, desde os cortiços que hoje abrigam imigrantes africanos na região da Baixada do Glicério, ocupações de prédios por famílias sem teto, casas super-ocupadas, nas regiões do Pari e Vila Maria, pelos imigrantes bolivianos, às favelas e os conjuntos habitacionais nas longínquas periferias. Dessa forma, a cidade capitalista é ocupada e vivenciada de diferentes maneiras por diferentes classes sociais, que por ela transitam, mas não ocupam os mesmos espaços, pois diferem no poder econômico, cuja desigualdade se reproduz nas relações desiguais produzidas na cidade.

Explorar a paisagem da região sudoeste de São Paulo, palco das transformações urbanas mais radicais, ocorridas desde o último século (a partir da retificação do rio Pinheiros, passando pelas Operações interligadas e pelas Operações Urbanas) até o atual momento, é assustar-se com o poder modificador do capital sobre algumas parcelas espaciais na cidade, operado através da aliança com o poder público, que aplica grande quantia de recursos públicos em infraestrutura e incentivos fiscais, criando o cenário propício para o investimento e a acumulação do capital por parte de vários setores da economia. 

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