sexta-feira, 20 de junho de 2014

para pensar:
Aula pública do professor Paulo Arantes , relato fornecido pela ADUSP

“Professores apassivados”
As condições climáticas imprevistas determinaram o encerramento antecipado da Aula Pública, levando a coordenação a mudar a programação. Assim, o professor aposentado Paulo Arantes (FFLCH) foi designado para falar em nome de todos os convidados.
Arantes ministrou uma curta e incisiva aula sobre o processo de privatização das universidades públicas, abordando-o não por seus aspectos relacionados à economia e às questões de financiamento, mas pelo ângulo da avaliação a que os docentes se submetem. Preliminarmente, porém, ele se referiu ao direito à educação, que hoje, a seu ver, representa apenas o acesso a um serviço ou produto: “A ideia de educação como emancipação, como autogoverno, como autonomia, como maioridade, como capacidade de reflexão, intervenção pública e política, desapareceu. Porque desapareceu atrás dela a mobilização social que a empurrou trinta anos atrás”.
Ele comentou, a propósito, que os professores municipais de São Paulo, na sua recente greve, repudiaram o conceito de “direito de aprendizagem”, que tem como máxima “aprender a aprender”. Ora, observou, aprendizagem nesse contexto significa “aprender a se virar”, buscar emprego etc. Assim, a primeira mudança de linguagem seria esta degradação da noção de direito surgida na década de 1980.
A segunda mudança nesse vocabulário geral dos direitos seria “outro fantasma, o fantasma da privatização como abolição de direitos”, na visão do professor. Então, para falar desse tema, optou por discorrer sobre algo que não é tão evidente: “É muito fácil bater nas fundações de apoio, porque — é óbvio — é simplesmente um negócio”. Mais difícil, afirmou, é entender “a nossa participação em todo esse processo de privatização do ensino superior público no Brasil e em particular no Estado de São Paulo”.
E como se deu tal participação? “A cada volta do parafuso da história recente, nós nos deixamos levar, nos deixamos conduzir, deixamos que a universidade, que foi uma instituição, se transforme numa organização, da qual nós fazemos parte”, prosseguiu. “Particularmente a Universidade de São Paulo, que é a mais oligárquica, a mais elitizada, se transformou há muito tempo numa organização de cujas engrenagens nós professores fazemos parte voluntariamente, queiramos ou não”.
Pois bem: “Nós deixamos que a universidade se transformasse numa espécie de simulacro de fábrica, com professores docilizados, disciplinados e apassivados. E apassivados por um mecanismo muito complexo de governo, que afeta a todo mundo, tanto na universidade como no mundo do trabalho, que chama-se avaliação. Não é à toa que os professores da rede municipal se voltaram contra o sistema de ‘aprender a aprender’... é aprender a ser avaliado! Avaliado por seu desempenho. Essa avaliação nós a implementamos, nós participamos e nos autogovernamos para essa avaliação”.
Arantes mencionou, para ilustrar seus argumentos, que o jornal O Estado de S. Paulo publicou naquele dia matéria na qual os três reitores “se vangloriam da organização empresarial e gestionária da universidade, não há nenhum problema, todas as regras são cumpridas”. Para que essas regras sejam cumpridas, disse o professor, “é necessária a colaboração dos pesquisadores, dos professores, e sobretudo dos estudantes, inclusive os estudantes de pós-graduação, que são os que mais sofrem em cumprir metas de produtividade”.
A avaliação, continuou, é uma imitação do sistema de preços do mercado. “Como é impossível avaliar o desempenho de 80 mil pessoas individualmente, fazem um sistema de índices, que são [como] o sistema de preços relativos, não remetem a nenhuma realidade. E nós trabalhamos para alimentar esse sistema de índices, com o ranqueamento de nossa posição, dos nossos departamentos, dos nossos estudos e da nossa universidade. Isso é justamente o que nós podemos entender como privatização. A universidade está sob violência autoinfligida. Ela se comporta como se fosse um sistema de empresários, que produzem uma mercadoria que não existe. A universidade não produz nenhuma mercadoria, é uma mercadoria falsa, e portanto é uma construção política fictícia”.
Ainda segundo o professor: “Nós nos matamos, adoecemos, enlouquecemos, somos arrochados, para produzir uma coisa que é absolutamente fictícia. Voluntariamente: nós trabalhamos para nos autoavaliar. Diante dessa devastação social, psíquica, intelectual e política, falar em mensalidade, falar em fundação de apoio”, ou mesmo de alguma complementação orçamentária, “é conversa miúda”.
Há movimentos sociais da maior importância, finalizou, “que tem convênios com as universidades, que obrigam seus militantes a ter [currículo] Lattes”. Chegamos ao fundo do poço, lamentou: “Temos que repensar completamente o nosso destino”.

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