segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os olhos dos pobres (C. Baudelaire)

... Nós passamos juntos um longo dia que me parecera curto. ..

À noite, um pouco cansada, quiseste assentar-te em frente a um café novo que abrira perto de um boulevard novo, ainda todo repleto de pedras e exibindo já gloriosamente seus esplendores inacabados. O café reluzia. O próprio gás das lamparinas demonstrava todo o ardor de um começo, e iluminava com todas suas forças os muros ofuscantes de brancura, a planura resplandescente dos espelhos, o dourado das pilastras e cantos, os pajens de bochechas rechonchudas caminhando com os cães em suas coleiras, as senhoras rindo com suas jóias penduradas aos pulsos, as ninfas e as deusas com cestas de frutas à cabeça, patês e carnes, as Hebes e Ganimedes apresentando em braços estendidos a pequena ânfora de bavaresa ou o obelisco bicolor de sorvetes sortidos;  toda a história e toda a mitologia colocadas a serviço da voracidade.

Bem à nossa frente, sobre a calçada, estava em pé um valente homem em seus quarenta anos, os olhos cansados, a barba grisalha, tendo em uma mão um pequeno garoto e segurando no outro braço um pequeno ser, fraco demais para caminhar. Ele exercia seu ofício de operário e levava depois seus filhos para tomar o ar da noite. Todos em farrapos. Aqueles três rostos eram extraordinariamente sérios, e seus seis olhos contemplavam o novo café com admiração igual, mas com nuances próprias de cada idade. Os olhos do pai diziam: "Que belo! Que belo! Parece que todo o ouro do pobre mundo está sobre esses muros." - Os olhos do garotinho: "Que belo! Que belo! Mas é uma casa onde somente podem entrar as pessoas que não são como nós." - Quanto aos olhos do mais novo, estes estavam fascinados demais para exprimir qualquer coisa além de uma alegria estúpida e profunda.

Os músicos dizem que o prazer torna boa a alma e mole o coração. A canção estava certa àquela noite, no que me diz respeito. Eu não apenas estava enternecido por aquela família de olhos, como também me senti um pouco envergonhado de nossos copos e garrafas, maiores que nossa sede. Eu voltei meus olhos aos teus, querido amor, para neles ler meu pensamento; eu mergulhei em seus olhos tão belos e tão unicamente doces, seus olhos verdes, habitados pelo capricho e inspirados pela Lua, ao que me dizes: "Acho essas pessoas insuportáveis com seus olhos arregalados! Você não poderia pedir ao garçom que os afugente daqui?"

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