terça-feira, 25 de abril de 2017

Reflexões sobre a música contemporânea: o que a música contemporânea nos indica.

A arte é indicadora do futuro. Foi assim que a professora Fani relacionou na ultima aula de geografia da metrópole os movimentos artísticos do final do século XIX e século XX com a construção de uma sociedade moderna onde o espaço e o tempo são abstratos. Neste texto gostaria de dar uma aprofundada nos conhecimentos musicais e algumas questões que complicam o movimento artístico nesse tão complicado século XXI.

 A música é uma das forças da indústria do entretenimento, valendo só com o Spotify cerca de 8 bilhões de dólares. Mesmo a forma com que apreciamos a música se modificou muito após a capacidade de gravar e reproduzir conteúdos, sendo que todos os momentos podem ser usados para consumir música – que se tornou uma mercadoria. Desta forma há um grande debate sobre como a construção das músicas deixaram de ser livres, mas pensadas apenas sob a ótica da venda e da imagem que se quer criar do artista. E mesmo que haja uma força contrária ao mercado com os movimentos de contracultura e de piratear basicamente qualquer artista, podemos também observar que o mercado acaba por absorver essa outra estética e outra apreensão da música. Exemplos não faltam com o punk, hip-hop, rap e até o funk, que começaram criticando a sociedade e a estética que estava em vigor na música da época, mas que acabaram por se juntarem à indústria.

 Assim sendo, a força com que a arte, neste caso representada pela música, tem de indicar qual será o futuro da nossa sociedade moderna, caiu tendencialmente, mas ainda não deixou de existir. Alguns movimentos conseguiram se separar quase completamente do que muitos conhecem como popular – ou o que mais vende - e atuar como uma criação quase pura da nossa sociedade da era digital – e ainda moderna. Muito disso se deve a força da internet nos dias de hoje.

 Começando pelo exemplo que dei a professora Fani no final da aula, Merzbow (Akita Masabi) nasceu em Tóquio (19/12/1956) e desde a década de 1980 vem revolucionando o que se entende por música eletrônica. No vídeo abaixo é possível ver um dos seus materiais mais famoso, Pulse Demon foi lançado em 1996 e carrega toda a estética do harsh noise (barulho forte em tradução livre). Atualmente Merzbow lançou quase 290 álbuns de estúdio (não, você não leu errado) e serve como influência a quase todas as bandas e artistas de noise e música digital mundo afora.

https://youtu.be/AguPH0XBxdw

 Para uma melhor apreciação do processo de criação musical dele é importante pesquisar vídeos de apresentações ao vivo (vou deixar uma aqui em baixo). Resumidamente ele produz os sons a partir do controle de uma série de pedais, distorções e até alguns instrumentos feitos por ele mesmo, que distorcem os sons captados por um microfone ou captador. É basicamente como se as máquinas se comunicassem ou fizessem a arte por si só, abstraindo completamente a harmonia da música, ficando quase como uma maquina repetindo ritmos sem parar.

https://youtu.be/pwWZaOsD6Y4

 Outro exemplo de arte contemporânea que consegue indicar o nosso futuro e nos ajudar a entender o que vivemos hoje é o vaporwave. Nele os mais diversos artistas revivem a estética do inicio da internet, revivendo todo rol de musicas, das mais diversas fontes como comerciais e até barulhos de antigos do Windows, e reinventando toda a estética visual grega, romana e renascentista a partir do olhar virtual. Quase com um olhar 100% globalizado, tudo acaba virando uma referencia virtual com escritos japoneses.

Essa estética acaba tendo uma enorme repercussão a partir da influência que ganhou na internet nos últimos anos, mas vejo de certa forma como um indicativo da nossa sociedade pós queda do muro de Berlin e tentando indicar um pós moderno. Tudo que é produzido pelo vaporwave tende a ser uma reinvenção de um material já existente, sendo a música mais famosa desse movimento (リサフランク420 / 現代のコンピュー) não é original, mas um sample de uma música dos anos 1980 com a velocidade diminuída. Não tem uma força de mensagem ou uma tentativa de crítica, o vaporwave vive pela estética da era digital. O vídeo abaixo consegue demonstrar bem essa cultura.

https://youtu.be/Ki-fATpXa00

 Por fim, outra banda que consegue expressar toda a problemática do nosso tempo e até indicar um futuro obscuro a frente é o Death Grips. Composto por Mc Ride, Zack Hill e Andy Morin, Death Grips lançou sua primeira composição original em 2011 e desde então mais 6 álbuns em 6 anos de existência. A música deles combina um industrial, noise e hip-hop experimental, com letras extremamente violentas, que representam nossa doentia vida cotidiana e existência cada vez mais sem sentido.

Toda sua estética é criada no absurdo e no digital, especialmente representados no álbum No Love Deep Web (capa acima). Eles conseguem indicar o futuro dominado pelo espetáculo, urbanização e digitalização de toda vida humana. Se pegarmos a própria letra de No Love (https://genius.com/2153433) podemos perceber a falta de sentido na vida do eu lírico e a força com que as drogas e a vida frenética o faz ser quem é. De certa forma eles são frutos da sociedade que vivemos, completamente espetacularizada, mas também indicam com a construção musical uma industrialização, uma constante reprodução dessa vida. No nível da mensagem que a música tenta passar – e mesmo nas apresentações deles ao vivo – é de completo niilismo, abstração da memória, do lugar que se habita, é uma simples vida frenética e violenta.

https://youtu.be/Orlbo9WkZ2E

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